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Confira a entrevista com o autor Michael Card , escritor do livro - Uma Tristeza Sagrada 

Vinte e cinco anos dedicados a compor músicas, escrever livros, criar estudos bíblicos e acumular prêmios não deixaram Michael Card imune à dor. Após enfrentar a morte de um sobrinho de 18 anos e de duas sobrinhas ainda bem pequenas, Card embarcou em uma jornada para aprender como o sofrimento nos aproxima de Deus. Seu novo álbum, The Hidden Face of God (A face escondida de Deus), segue o livro intitulado A Sacred Sorrow (Uma tristeza sagrada)

Card compartilhou conosco os motivos que o levaram a dedicar os dois projetos ao tema do sofrimento. Falou, ainda, sobre a Igreja nos Estados Unidos e sobre a verdadeira adoração.

Você escreveu um livro e compôs um álbum sobre o sofrimento. O que inspirou toda essa lamentação?

Michael Card: O filho mais velho de meu irmão morreu em 1999. Minha irmã perdeu duas filhas bem pequenas quatro ou cinco anos antes. Minha mãe perdeu um filho antes do meu nascimento. Esse tema sempre esteve em minha mente, mesmo escondido atrás de outras preocupações. O que me levou a, enfim, pensar, agir e escrever sobre ele foram os ataques de 11 de setembro. Foi como um toque de despertar. O livro, A Sacred Sorrow, surgiu por causa dessas experiências. As músicas resultaram do trabalho para escrever o livro.


Em seu novo álbum, The Hidden Face of God, a música "How Long?" (Até quando?) fala sobre Deus escondendo sua presença de nós. Você sentiu isso?

Meu sobrinho morreu depois de um longo período de sofrimento com câncer e minha maior preocupação era ajudar meu irmão. A primeira filha que minha irmã perdeu era cega, tinha espinha bífida, além de vários outros defeitos de nascença. Ela viveu dois meses. Foi fácil aceitar essa morte. Quando minha irmã perdeu a segunda filha, um ano e um mês depois, fiquei muito abalado. A criança morreu com dois meses, devido ao apêndice supurado. Sob muitos aspectos, nossa família se fragmentou e nunca conseguiu se recuperar. Minha irmã se divorciou e meu irmão e a esposa se separaram. Tudo isso foi devastador para nossa família. Foi aí que surgiram as maiores lutas e questionamentos. E eu fiquei muito bravo com Deus.


Por que é tão difícil quando parece que Deus está indiferente ao nosso sofrimento?

Deus se revelou a nós como Deus de amor, aquele que nos dá tudo. Surge um problema quando alguma coisa não se encaixa nessa idéia. E se parece que ele está em silêncio, a situação fica muito pior. Há um livro, chamado Naming the Silences, de Stanley Hauer, que trata de como Deus usa o silêncio quando estamos sofrendo. A principal intenção de Deus é se doar, e não nos dar coisas. Jó, no fim do livro, não recebe as coisas de volta, ele recebe Deus de volta. É preciso repensar todo nosso relacionamento com Deus para vê-lo não como um provedor que nos dá as coisas, mas sim como alguém que deseja se doar a nós.


De que forma esse entendimento transformou você?

Muita gente me procura para contar suas experiências. O impulso natural é sempre tentar consertar as situações, mas não faço mais isso. Hoje, sou capaz de penetrar na dor alheia e chorar com aquele que sofre.


Os amigos de Jó o acusaram pelo seu sofrimento. Os cristãos fazem muito isso com os outros cristãos. Por que isso acontece?

O sofrimento alheio é ameaçador, porque vai contra a fórmula mágica: se você é bom, Deus o abençoa e se for ruim, ele castiga. As pessoas não entendem quando vêem outros sofrendo. Surgem com respostas prontas, porque se sentem ameaçadas: o mesmo pode acontecer com elas. Houve gente que disse, tanto para minha irmã quanto para meu irmão, que se eles tivessem mais fé os filhos não teriam morrido.

Por que é importante os cristãos “chorarem toda lágrima não chorada”, como afirma sua música “Come Lift up Your Sorrows” (Venha, apresente suas dores)?

Lamentar é a experiência de adoração mais verdadeira. No Salmo 51, Davi abriu mão de tudo por causa de Bate-Seba e entendeu que Deus não queria seus bois e cabras. Deus queria o espírito quebrantado e o coração contrito de Davi. Ele analisou sua vida e percebeu que havia abandonado o que Deus mais queria dele.
Um amigo meu estava realizando uma tarefa pastoral quando um motorista bêbado atingiu o carro dele e deixou-o paralisado. Meu amigo se lamentava quando teve uma experiência poderosa da presença de Deus. Quando sentiu que a experiência terminava e a presença ia embora, gritou: “Não precisa me curar! Basta ficar aqui comigo”. Ele entendeu que precisava mais da presença de Deus do que de sua provisão.


O que mais o sofrimento realiza?

O milagre do livro de Jó é que nossas lágrimas comovem Deus. No primeiro capítulo, Deus está em seu trono, no céu. Mais adiante, está ao lado de Jó, que diz: “Meus ouvidos já tinham ouvido a teu respeito, mas agora os meus olhos te viram”. As lágrimas são uma ponte que levam a Deus.
Olhando para a cruz, podemos ver que ele usa o sofrimento para salvar o mundo.

Deus acolhe nosso lamento?

Ele diz: “Seja quente ou frio. Mas nunca seja morno”. Creio que Ele prefere que alguém fique bravo com Ele que negar sua existência. Quando estamos sofrendo, podemos escolher não falar com Ele nem ter experiências com Ele. Jó disse coisas terríveis e teve que se desculpar, mas nunca negou a existência de Deus. Jacó lutou com um anjo e disse: “Não vou deixar você ir embora”. É sobre isso que falo em minha música “I Will Not Walk Away from You” (Não me afastarei de ti). Posso dizer coisas erradas, acreditar em coisas erradas. Ainda assim, não estou me afastando. Não desisti, não abandonei a luta. No fim das contas, você pode fazer essas afirmações porque Ele o sustentou o tempo todo.


Por que, então, há cristãos que pensam ser falta de respeito se queixar com Deus?

Nos ensinam que reclamar é sinal de fraqueza, mas nada na Bíblia nos proíbe de chorar ou sofrer. Jesus falou: “Bem-aventurados os que choram”. E Ele fez algo que nenhum outro líder fez - não agüentou e chorou na frente de seus seguidores.


Como uma pessoa “adora a Deus com suas feridas”, como você diz em "Come Lift up Your Sorrows"?

Não é possível adorar a Deus sem reconhecer nossas feridas. Há uma revolução na adoração em curso nos Estados Unidos, mas não estamos adorando. Não há feridas. A verdadeira adoração celebra a grandeza de Deus e quem não sofre não conhece a grandeza dele. Não experimentou que a presença de Deus é melhor que sua provisão. A grandeza de Deus se vivencia no deserto, não nos campos de piquenique. O hino “Graça Sublime” diz: “Eu estava perdido, mas fui achado”. Sem o reconhecimento da perda, que motivo há para adorar, a não ser adorar por se sentir bem? O lamento é a linguagem perdida da adoração.


Qual sua opinião sobre a música de adoração contemporânea?

Muitos realizam um bom trabalho e tentam ouvir a Bíblia e as necessidades das pessoas, mas a maioria das músicas é uma resposta comercial a uma tendência de mercado.


As opiniões que você apresenta nesse álbum são muito raras na música cristã. Por que não ouvimos mais letras como essas?

Quando quem cria a música é a indústria e não a comunidade, o resultado será ouvirmos o que vende mais. Muitos compositores têm escrito obras boas, mas nunca os ouvimos por causa da indústria. As primeiras músicas cristãs surgiam na comunidade. John Michael Talbot afirmou que a música daquela época possuía uma santidade que não possui hoje. Isso não quer dizer que Deus não usa a indústria de música cristã. Ele usa.
A ênfase excessiva na música e não na letra também faz parte do processo. E também, muitos compositores são bem jovens. É preciso procurar muito para encontrar aquilo que faz seu coração vibrar, mas é possível encontrar. Andrew Petersen é um dos maiores compositores da atualidade. Todavia, ninguém gravou as músicas dele. “The Silence of God” (O silêncio de Deus), que está em meu álbum, é dele. Sara Groves também é grande compositora. Gente como eles precisa receber mais apoio da indústria fonográfica.

Você gravou também “To a Broken God” (Para um Deus quebrado), de Michael Kelley Blanchard. Em geral, você compõe as músicas que grava. Por que usou obras de outros artistas desta vez?

É muito difícil compor lamentos. Assim que ouvi as músicas de Andrew e Michael eu me dei conta de que não conseguiria fazer nada melhor.


"How Long?" (Até quando?) foi gravada em um de seus álbuns anteriores. Por que você a regravou com o saxofonista de jazz Kirk Whalum?

A letra é do Salmo 13, basicamente um lamento, então se encaixava no álbum. Da primeira vez, gravei com uma orquestra, mas queria fazer algo diferente agora. Eis a atitude típica da indústria: quando apresentei a música para alguns profissionais de rádio, eles me disseram que ficaria muito bom sem o sax. E o sax era o mais importante para mim!


Por que você incluiu o spiritual afro-americano "Walk with Me, Lord" (Anda comigo, Senhor)?

Freqüento uma igreja de negros e a música é meu pastor cantando. Ele fez parte do movimento dos Panteras Negras, na década de 60. Essa era a música predileta da mãe dele, e ele chora quase toda vez que a canta. Toquei banjo porque os escravos inventaram o banjo. É o único instrumento totalmente americano.


Você trabalha com o Ministério WorldServe. Fale sobre seu interesse pela Igreja perseguida.
Comecei com a Liga Bíblica, achando que conseguiria tempo, em minha agenda apertada, para ajudar a Igreja perseguida. Contrabandeei Bíblias para regiões onde elas são proibidas. Depois de ir, descobri que sou um pigmeu espiritual, que recebia mais do que dava. Conheci um homem, na China, que passou 22 anos na prisão por causa da sua fé. Foi uma boa dose de perspectiva correta. WorldServe reconhece o sofrimento da Igreja como recurso, como exemplos do verdadeiro cristianismo. Eles são fortes em aspectos em que somos muito fracos. Um dos profetas disse: “Você diz que é forte, mas é fraco, pobre, cego e digno de pena”. Isso acontece com a Igreja nos Estados Unidos. Sinto-me muito mais à vontade na Igreja clandestina da China, do Vietnam ou de Cuba. Eles adoram em unidade e lamentam juntos.

 

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